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Charbel Chaves Fotografia

Fotografia | Estúdio | Eventos | Cursos

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Um caminho seu




Adoro dar aulas. A vida de professor de fotografia tem uma série de pequenos-grandes prazeres. Um deles é perceber um ou outro aluno despertando para dilemas que realmente farão diferença na carreira deles. Alguns alunos logo olham para o panorama fotográfico em volta e pensam “onde eu me encaixo nisso?”, ou ainda “Eu não me encaixo em lugar nenhum aqui, peciso achar uma solução pra isso!”. A busca por uma identidade artística, um caminho autoral, uma maneira própria de construir sua carreira e obra é um dilema realmente relevante, entusiasmante e com alguns perigos também. Quando um(a) aluno(a) está nessa “crise” eu preciso ser cuidadoso para não interferir de maneira que, ao apontar um caminho, eu aponte o meu caminho. A idéia é que ele(a) encontre a saída sem que eu tenha que sair com ele. Que ele(a) encontre um caminho, uma maneira, uma motivação e impulsos que não sejam os meus. E isso é um desafio enorme para qualquer professor. Esse dilema do “trabalho autoral” geralmente nasce da contemplação do belo (1). Observamos o trabalho de outra(s) pessoa(s) que a gente admira, nos envolvemos, acompanhamos e imaginamos então um “meu trabalho”. Mas ao olhar a obra de outro vemos apenas o resultado final de um processo. Ela geralmente não revela o processo. Frequentemente até esconde o processo. Alguns artistas demoraram anos para amadurecer um conceito e a partir dele desenvolver procedimentos, abordagens, técnicas e só no fim realizar (materializar) a obra. A obra é "fecundada" bem lá tras. E o que é muito interessante e produtivo é a gente ir atrás do processo criativo do(s) artista(s) e não somente ficar apreciando a obra. O processo ensina muito mais sobre o autor, explica a obra, mas acima de tudo nos dá idéias para criarmos o nosso processo, o nosso caminho, o nosso percurso! E o seu percurso pode (e provavelmente irá) desembocar numa obra bem “sua”. Por isso é importantíssimo que você pense/aprenda sobre o processo criativo de outros tomando cuidado para não se envolver com ele mais do que deve. Se houver esse envolvimento, o seu processo por ficar com "sotaque" demais desse artista, beirando a imitação. Uma coisa é copiar alguém (com admiração ou má intenção), outra coisa é (como diz o Mario Sergio Cortella) apropriar-se de algo. Mesmo que sejam fragmentos, insights. Apropriação é tornar seu, tornar próprio, é levar no coração e na mente com você, é grudar em você como ferramenta, experiência ou insumo. É construir-se primeiro para um dia construir algo. E tudo dá trabalho e tem seu tempo próprio de maturação. Podemos fazer apropriações de muitas formas. O que somos é composto por partes que vieram de lugares e tempo que nem percebemos completamente (família, livros, comidas, cidades, fé, educação, conversas, amizades, inimizades, notícias, sonhos, memórias reais ou inventadas, objetos do cotidiano, pequenos rituais diários…). Quando a gente percebe de onde veio alguma coisa que está "apropriada" em nós é ótimo porque podemos tomar mais controle dessa apropriação (e até causar outras), ou enclausurar algumas indesejadas, ou canalizar (mesmo que sejam ruins/traumáticas) para caminhos criativos (vide Frida Kahlo). Com paciência, meditação (não no sentido zen, mas no sentido de "dar-se o tempo necessário”) e disciplina podemos criar uma “oficina” mental, podemos pensar mais estruturadamente (2) para que nós mesmos possamos nos expor à uma série de estimulos que criarão as condições para que em algum momento “desabroche” o seu caminho autoral. Eu gosto muito do processo criativo do Vik Muniz. Ele é um “multi-artista" (3). E é muito produtivo porque tem uma disciplina de "pequenos experimentos", "pequenos projetos". Ele "incuba uma idéia" antes. Ele produz pequenas séries para ir se apropriando de técnicas novas e abordagens novas. A idéia que eu quero sugerir (depois de tanto falatório! kkkk) é a seguinte: invente pequenas séries. Pequenos ensaios sobre temas auto-impostos. Coisas que você pode fazer inclusive em paralelo. Sem prazo pra terminar, mas com uma certa constância. A idéia é desenvolver um tema, não necessariamente uma técnica, mas se quiser unir a alguma técnica fotográfica específica, melhor ainda. Vou dar alguns exemplos: 1) Velhice x cidade ou a juventude x cidade 2) A água, o dinheiro, a comida, o trabalho... como as pessoas se relacionam com isso no dia-a-dia 3) O(s) tempo(s), a espera, a pressa 4) Invisibilidade social (de pessoas, de funções, de animais, da história do lugar...) 5) Ignorância (no sentido de desconhecimento). Coisas que você não conhecia, pequenas descobertas, tesouros que estavam por perto... 6) A falta, a sombra, o silêncio, a pausa, o vazio, a saudade, ou seja, a não-coisa 7) Onde piso (literalmente ou figurativamente) 8) Deixado para tras. Tudo que é abandonado, superado (bom ou ruim) 9) Esquecimentos (faceta da memória). A fotografia em si tem muito a dizer sobre isso. 10) Re-memória. O que é lembrado nunca é o que aconteceu. No processo de lembrar sempre existe alterações. Pense nisso! 11) Sentidos (tato, cheiros, sons...) 12) Morte (no sentido não-biológico). Morte de uma amizade, morte do tempo (procrastinação), morte da oportunidade (preguiça), morte de um valor (ética, lealdade, verdade...) 13) Eu me vejo. Minhas características físicas e de personalidade percebíveis em outras pessoas (mesmo que desconhecidas) 14) Virtudes. Pequenas ou grandes. Coisas boas que vc consegue fotografar nas outras pessoas. 15) Solidão coletiva. Leia Zigmunt Bauman para ampliar. (4) 16) Hábitos familiares (arrumação, atividades, encontros, manias, rituais, peculiaridades…) 17) Comidas típicas da sua família e as histórias por tras delas. 18) O que minha casa viu! A família fotografada do ponto de vista das paredes, dos objetos, o que a casa presencia. Ela é a observadora. 19) Rastros de gente (bons e ruins) pela cidade, pela casa, pela sua vida. 20) Compulsões humanas. 21) Beleza em coisas pequenas (leia Drummond) 22) Rimas visuais (treino de composição e atenção). Exemplo: duas coisas juntas que são diferentes mas metálicas. Duas coisas diferentes mas que são vermelhas. Duas coisas diferentes mas que tem "carinha de gente". Duas coisas diferentes mas com a mesma função (exemplo: comida e livros - ambos alimentam). 23) Movimento explícito na foto. 24) O mesmo lugar em várias horas e dias diferentes fotografando do mesmo ponto de vista e com a mesma distância focal. Com gente, sem gente. De dia, de noite. Dá pra zaer uma série com vários lugares assim. 25) O humano nas coisas. A história das pessoas ou dos processos por tras dos objetos mais simples. 26) Sequencias. Produzir deliberadamente folhas de contato de 12, 24 ou 36 fotos, como se fossem filme fotográfico padrão da era analógica. Sem apagar nenhum foto. (5) 27) Ir para algum lugar, gastar um tempo observando…e fazer apenas 1 click que expresse suas observações. Desenvolver a capacidade de síntese visual. 28) Fazer um diário visual. Todo dia 1 foto representativa. No fim de cada mês, criar um texto contando a história do seu mês baseado nas fotos que você fez. 29) O filme da vida real. Assista um filme e procure cenas que remetam ao filme 30) Ilustre um poema que você goste com 1 ou várias fotos de sua autoria. 31) Faça reinterpretações visuais do seu álbum de família. Vá atras dos lugares, das pessoas, das histórias 32) Entreviste alguém desconhecido. Faça uma pequena série de 12 fotos que ilustrem a entrevista. Enfim... a lista não acaba. Mas esse tipo de "pequena série" é um laboratório, pode até virar uma obra em si, mas o objetivo é fornecer insumos para o desenvolvimento do seu pensamento. Durante esse tipo de treino você vai ter idéias, vai contemplar, vai meditar. O processo te influenciará. Mesmo nas horas de ócio, de sonho, de sono... surgirão insights. Aproveite para criar um álbum no Facebook ou no Instagram com o tema e vá incluindo novas fotos. Isso ainda vai funcionar como uma vitrine do seu trabalho criativo para o mundo. Acima disso, está a possibilidade de desenvolver a sua interpretação, a sua análise, o seu pensamento crítico/visual. É desse solo que surgirá o SEU caminho. É sobre essse substrato que nasce um autor. A criatividade é uma luta (6). Tem que calçar botas, pegar o facão e começar a abrir uma picada na mata. Quando menos você esperar, terá construído uma estrada. A sua.

Para conhecer algumas pequenas séries fotográficas que eu crio para o meu próprio treinamento, acesse aqui. Fique à vontade para "roubar" as idéias!

Bibliografia citada para você aprofundar o assunto:

  1. Metafísica do belo - Arthur Schopenhauer - Ed. UNESP. - Capítulo 10

  2. Pense como um artista - Will Gompertz - Zahar

  3. Vik Muniz - Everything so Far - Editora Capivara

  4. Vida Líquida - Zygmunt Bauman - Zahar

  5. Magnum Contatos - IMS

  6. A luta criativa - Chris Orwig - Alta Books