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Charbel Chaves Fotografia

Fotografia | Estúdio | Eventos | Cursos

Rua Valdemar Bertoldi, 420

Alvorada Parque - Paulínia, SP

+55 (19) 99756-3999

Poesia, poema e fotografia



Foto: Charbel Chaves, em Itanhandu, MG

...

Eu queria fazer parte das árvores como os pássaros fazem

Eu queria fazer para do orvalho como as pedras fazem.

Eu só não queria significar.

Porque significar limita a imaginação.

E com pouca imaginação eu não poderia fazer parte de uma árvore.

Como os pássaros fazem.

Manoel de Barros

Falar sobre poesia é uma tarefa muito difícil. Gostar de poesia (alguma poesia) é uma coisa muito fácil. Isso é verdade, em parte, por que existem muitas poesias. Ela está por aí, em diversas aparências, em diversas circunstâncias. A poesia é comumente confundida com o poema. O poema é apenas uma das muitas manifestações da poesia. Mas a poesia é um substrato. É latente.

A poesia é ela mesma nas coisas, nas pessoas, nas situações e, no nosso caso, nas imagens. Uma fotografia de mãos dadas entre a vovó e o netinho é poética. Um leitor solitário à sombra de uma árvore, é poético. Uma plantinha que nasce na fenda do asfalto, é poético.

A captura da poesia pela nossa mente, pode ser muito imediata e por todo lugar, por toda a vida, se houver olhos de ver, ouvidos de ouvir, se a mente está sensível a ela. Você vê poesia nas coisas, você pode ser tomado por um espanto estético conversando com o vendedor de frutas na feira, você se encontra com ela vendo as gotas de chuva que batem na janela.

Nossa estrutura mental humana precisa e busca o belo poético nas coisas, desde criança. Pra ela, tudo é brincadeira. Pra nós, a utilidade e a necessidade da vida, dos dias, do viver em sociedade, nos tira pouco a pouco a percepção da poesia, se deixarmos. Mas ainda a temos. Esse desejo pelo belo é inerentemente humano.

No seu livro "O arco e a lira", Octavio Paz, conceitua muito claramente a poesia e o poema. Para ele, existem poesias sem um "corpo" de poema. Ela está em qualquer lugar e acontece sem a presença ou interferência do poeta (escritor). O poético pode estas nas coisas mais simples do dia-a-dia. Já o poema é uma forma.

Na linguagem escrita/falada existe essa “categoria”. É um uso possível da linguagem para a manifestação do que é belo. Ele pode ser mais direto ou mais abstrato, mais curto ou longo, mais sonoro e musical, mais livre ou despojado no som. Pode estar em um livro formalmente de poemas, ou embarcado numa canção. Ou, mesmo sem ser uma canção, pode haver uma "música" construída no prórpio poema.

Repare na ritmica indígena existente nestes versos de I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias. O som da fala contribui para a ambientação do tema. Leia em voz alta e repare nas acentuações.

No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos - cobertos de flores, Alteiam-se os tetos d’altiva nação; São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, Temíveis na guerra, que em densas coortes Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória, Já prélios incitam, já cantam vitória, Já meigos atendem à voz do cantor: São todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome lá voa na boca das gentes, Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, As armas quebrando, lançando-as ao rio, O incenso aspiraram dos seus maracás: Medrosos das guerras que os fortes acendem, Custosos tributos ignavos lá rendem, Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

...

A fotografia pode ser comparada em vários aspectos ao poema. Muitos fotógrafos lidam com a imagem como um "poema visual". O que não é em nada estranho, visto que a carga imagética no poema é bem óbvia, pensar em sentido oposto (da imagem para a mensagem) faz todo sentido.

Os poemas dizem muito (inclusive o que não foi dito) com uma economia de palavras. Diferentemente do romance, que é extenso, cheio de detalhes, o poema é conciso. Ele diz muito com pouco. O que não significa reducionismo. Muito pelo contrário, ele frequentemente nos conduz a um caminho, mas com muitas possibilidades de paisagem.

A simplificação intensifica a comunicação. Afia. Fazer qualquer coisa de maneira simples é muito difícil. O poema e a fotografia não são excessões. Simplificar é algo complicado. E como saber se chegamos lá? Ainda não sei. E talvez esse seja um bom sinal.

Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: "Coitado, até essa hora no serviço pesado". Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

O poema sempre nos dá mais do que ouvimos/lemos. E também nos entrega mais do que o autor pretendeu. Existe uma certa autonomia, com se fosse um jardim plantado que vai tomando forma variada ao longo do tempo e é apreciado de formas diferente conforme os olhos dos visitantes.

A fotografia se assemelha muito bem a isso, sendo também concisa, recorte da realidade, filtrada e adestrada para ser imagem fixa. Mas de uma forma oposta (em um aspecto): o poema constrói em nossa mente uma cena através das palavras. A fotografia constrói uma mensagem através da cena. Mas com grandes possibilidades de interpretações também.


O processo de construção de um bom poema e de uma boa fotografia passa por uma certa destilação. É como fazer um bom molho de tomate, é preciso ir mexendo no fogo, concentrando, esperando a água evaporar em parte e os ingredientes vão se relacionando, reagindo até atingirem o ponto ideal, onde tudo funciona bem e o sabor planejado poderá ser desfrutado. Também é preciso escolher os melhores insumos para que o resultado final seja o melhor. Estes estão dentro de você ou em fontes que você escolhe engolir. Um diferencial é que o poema pode ser "destilado" mais lentamente, a fotografia, nem sempre, visto que a cena diante do fotógrafo pode ser passageira.

Os bons poemas e as boas fotografias mexem conosco. Eles nos movem para um lugar onde não estamos. Eles nos tiram daqui para um ponto novo de observação sugerido pelo autor. E nos tiram daqui com suavidade e força ao mesmo tempo. Com certo carinho, mas com intensidade, como se fosse um relacionamento humano onde uma pessoa altera a outra no decorrer do tempo. Um bom poema, uma boa fotografia nos influencia.

Velho, não

Entardecido, talvez.

Antigo, sim.

Me tornei antigo

porque a vida

tantas vezes, se demorou.

E eu a esperei

como um rio aguarda a cheia.

Mia Couto

Existem sempre uma lógica interna para dar engajamento. Uma adequada condução. Um revela/esconde que prende o leitor do texto e da imagem. Os melhores poemas e as melhores fotografias deixam lacunas, dão espaço para a participação mental do outro. Não nos contam tudo, mas levantam hipóteses. Pra isso o poeta, íntimo das palavras, seleciona, depura e inventa o que for necessário. Proceder por eliminação, saber o que descartar, selecionar, é um dos procedimentos. Isso demanda tempo, esforço e atenção. O bom fotógrafo vai selecionar um ângulo, uma determinada luz, exposição, foco, profundidade de campo... de maneira a conduzir o observador, revelar, destacar ou esconder elementos.


No entanto, no resultado final, tanto da fotografia quanto do poema, está a linda ilusão de que é fácil fazer. Os grandes fotógrafos e os grandes poetas nos aparecem como seres iluminados, não como trabalhadores dedicados, como realmente são. A obra acabada frequentemente esconde as dores do processo, a luta.

...

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor.

Carlos Drummond de Andrade

Assim como o texto lança mão das ferramentas da língua para comunicar, a imagem lança mão das suas próprias, ou similares ao texto. Por exemplo, os conceitos de contraste, foco, condução, enquadramento, contexto, ritmo, movimento, momento, tempo, textura, alusão, metáforas, rimas, distorção...estão presentes em ambos. Seja na imagem construída em estúdio, seja “caçada” ao ar livre, a fotografia lida com uma série de decisões que devem ser tomadas pelo seu autor. Essas decisões definem quais elementos composicionais e técnicos servirão melhor ao propósito daquela obra. Assim como as palavras, as regras (ou a quebra delas) da língua, as rimas, as metáforas (minhas preferidas) a inventividade...devem servir ao propósito do poeta.

Uma característica extra que a fotografia pode apresentar é a narrativa em conjunto de imagens, não apenas em uma única. Neste caso, cada imagem pode comportar-se como um verso, uma palavra, ou fragmento. E, no seu conjunto, as imagens constituirão a obra. É o encontro da narrativa com a poesia. Entretanto, isso é opcional. Porque a fotografia também pode ser abstrata, surreal, conceitual, livre...como o poema.

Eu creio que a literatura em geral se presta muito bem ao trabalho de construção de repertório mental/visual para os fotógrafos, mas creio que o poema especialmente, pela sua apresentação sintética, pelo seu processo de criação e pela variedade de graus existentes entre o descritivo e o simbólico que ele pode carregar.

Canção de inverno

O vento assovia de frio nas ruas da minha cidade enquanto a rosa dos ventos eternamente despetala-se…

Invoco um tom quente e vivo — o lacre num envelope? — e a névoa, então, de um outro século no seu frio manto envolve-me….

Sinto-me naquela antiga Londres onde eu queria ter andado nos tempos de Sherlock — o Lógico e de Oscar — o pobre Mágico…

Me lembro desse outro Mario entre as ruínas de Cartago e me pergunto: — Aonde irão morar nossos pobres fantasmas?!

E para sempre perdido nas ruas da Cidade Nova o vento procura, em vão, ler os cartazes antigos…

Mario Quintana

Uma fotografia também pode ser um portal para um texto, um poema. Determinadas imagens dão um ponto de partida (ou de chegada) para que o escritor crie, visto que a interpretação dela é frequentemente muito pessoal.


Enfim, a poesia está nos olhos de quem vê, ouve, vivencia. A manifestação da poesia como obra admirável pode se dar por inúmeras formas, entre elas a fotografia e o poema, que pra mim, são primos.