Blog

Conceitos básicos

Lightroom

Negócios

Linguagem

  • Instagram - Cinza Círculo
  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • LinkedIn - círculo cinza
  • Pinterest - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza

Charbel Chaves Fotografia

Fotografia | Estúdio | Eventos | Cursos

Rua Valdemar Bertoldi, 420

Alvorada Parque - Paulínia, SP

+55 (19) 99756-3999

Pequenas obsessões fotográficas


Existem temas, coisinhas, bobeiras que vemos. E essas besteirinhas estão sempre no caminho! Hum...será?! O que eu creio é que o que nos interessa (sem percebermos), chama a nossa atenção inevitavelmente. No fundo cada um de nós tem temas pessoais, naturalmente pessoais. Imãs visuais. Muitas vezes não vamos atrás desses temas, apenas os vemos. Eles nos tocam e estão já em nós, antes de estarem no caminho.


Os meus. Tenho atração natural por assuntos que falam do tempo e dos vazios. De certa forma o tempo e os vazios são muito aparentados. O tempo deixa vazios. O tempo vai, sai, some, escorre, foge de nós. Então, por consequência, o silêncio, o espaço vago, o intervalo, a saudade, a pausa, a vírgula... são decorrências do tempo que passa. Pode parecer um pouco tristonho demais, mas não é. Eu acho que é mais melancólico que triste, mas calmo que doente, mais bonito. E os silêncios e os vazios são necessidades humanas (hoje meio esquecidas). Deus descansou no 7 dia da criação. Toda onda sonora tem sempre uma passagem pelo silêncio entre a compressão e a expansão do ar. As pausas dançam com as notas nas partituras. O sono cuida do corpo depois de cada dia. As colunas só são colunas por causa dos espaços entre elas. A saudade depura o amor. A vírgula canta, respira, dança, embala o texto. A barriga vazia tempera melhor a comida. Os vazios não são o oposto do cheio, são parte das coisas. São sim, cheios de significados. Os silêncios são falantes de uma certa forma. E cada vazio, cada silêncio, respeita o pensador. Dá a ele tempo e espaço para organizar as novas idéias, para criar e para imaginar, descansar, contemplar. Eu fotografo com frequência, portas e janelas. Elas são ao mesmo tempo algo em si e abertas, um nada para vermos ou passarmos. São ao mesmo tempo enquadramento e ponto de vista. São um limites e possibilidades. Eu também fotografo vestígios (pegadas, objetos deixados, rastros de gente, alusões físicas) que falam sobre o que houve aqui ou ali. Quase um trabalho de fotografia forense. Esses elementos falam das ausências. Coleciono estas coisas. São minhas pequenas obsessões visuais. Tenho várias outras e lidar com elas me explicam para mim mesmo, suavemente.


Quando falamos de fotografia autoral. Penso que podemos aprofundar os temas quando caminhos na direção da abstração. Mas é preciso tomar muito cuidado com o ímpeto! Entre o concreto óbvio e o abstrato puro existe um universo mais rico. E cada fotógrafo pode encontrar o ponto onde lhe convém. Nos extremos encontramos obviedade demais ou desconexão pedante com o público.


Na verdade a fotografia, fisicamente falando, só fotografa o que é material e concreto. Então é preciso ir além (na imaginação/pensamento) para representar fotograficamente um conceito ou palavra abstrata. É preciso pensar em termos de alusão! Aliás, graciosamente a palavra alusão (fazer referência a) tem a mesma raiz (do latim ludo) que a palavra lúdico (brincadeira). E o uso da técnica correta (mesmo que elementar) pode conduzir o pensamento do observador da imagem na direção que o autor desejou, ou apenas sugeriu. Pense por exemplo, em flores fotografadas em preto e branco. Pode parecer uma contradição à primeira vista. Mas será que o é mesmo? Quando tiro a camada óbvia de cores, levo o observador a notar outras camadas, como as texturas, as transparências, as formas. Estou querendo lhe dizer: hei, me olhe além da aparência! Olhe minhas pétalas como se olha uma pele, nova, velha, machucada, tátil. Sendo assim, qualquer tema muito comum, cotidiano, simplório mesmo, pode ser o pretexto para uma nova abordagem, uma nova lição. Nada novo! Os melhores poetas fazem uso das coisas simples para nos conduzir por caminhos profundos.


Portanto creio que, se temos algumas pequenas obsessões naturais, elas devem ser os melhores pontos de partida. Não devem ser rejeitadas pela sua naturalidade. É um erro atribuir valor apenas ao que é complexo ou inusitado. E todos nós temos nossas manias visuais, temas que gostamos e não damos muito valor, mas gostamos! Eles são chinelos velhos que nos deixam confortáveis. Podemos perfeitamente partir deles para falarmos alguma coisa, brincarmos (ludo) com alguma poesia. Mas se olhamos para eles como não merecedores de um trabalho autoral, só posso dizer: Que pena, mais uma pequena riqueza abandonada por um fotógrafo! Acontece todo dia.

As bordas e os furos das folhas me lembram mapas. Uma cartografia botânica que o tempo desenha.