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Charbel Chaves Fotografia

Fotografia | Estúdio | Eventos | Cursos

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Invisibilidade



Só fotografamos o que é fisicamente visível. É da natureza do processo fotográfico. Mesmo quando queremos retratar um tema abstrato, subjacente à cena, procuramos por elementos visíveis que o representem ou façam alusão a ele. É assim, não tem como fugir. É algo imposto pela natureza da fotografia. Por mais "contemporâneo" que você tente/queira ser, vai pagar um mico se tentar fugir disso, achando que é uma análise super pós-moderna. E não é preciso negar este limite. Aliás, a arte florece e se alimenta de limites (entre outras coisas). Mas isso é outro assunto, para outro post.

Dado que o que é visível é fotografável (fisicamente), que tal uma busca pelo que é visível mas não é visto? É isso mesmo. Nossos dias estão lotados de não-vistos visíveis. Aquele gari que você não viu e quase trombou com ele, uma plantinha que nasceu na fresta do asfalto (que o Drummond viu, mas você não), o sujeito que trabalhava no posto de gasolina onde você abastecia o carro mas que agora não trabalha mais porque mudou-se de volta para o Piauí (e você não viu)...

Pois é. Talvez haja mais não-vistos do que vistos nos nossos dias, na nossa rua, na nossa família. E é assustador quando algo não-visto é notado por causa de uma tragédia. Algo não-falado é lembrado porque alguém morreu. Algo não-feito é desejado, mas não dá mais.

Eu estava lendo o fragmento 317 do Livro do Desassossego (Fernando Pessoa). Eu fiquei meditando, como ele, ao notar que "os outros não são para nós mais que paisagens...".

Pense em quantas histórias não-contadas estão ao nosso redor. Quantas jornadas (de dor, ou alegria, ou de mistério...) que não conhecemos, mas que transcorrem na vizinhança. E quantas vezes eu e você já ficamos aflitos com a falta de um tema!

Leia esse texto e deixe-se inspirar. Pense em ver mais, ver melhor e ver além.

Texto 317 do Livro do Desassossego

por Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Uma das minhas preocupações constantes é o compreender como é que outra gente existe, como é que há almas que não sejam a minha, consciências estranhas à minha consciência que, por ser consciência, me parece ser a única. Compreendo bem que o homem que está diante de mim, e me fala com palavras iguais às minhas, e me faz gestos que são como eu faço ou poderia fazer, seja de algum modo meu semelhante. O mesmo, porém não sucede com as gravuras que sonho das ilustrações, com as personagens que vejo dos romances, com as pessoas dramáticas que no palco passam através dos actores que as figuram. Ninguém, suponho, admite verdadeiramente a existência real de outra pessoa. Pode conceder que essa pessoa seja viva, que sinta e pense como ele; mas haverá sempre um elemento anónimo de diferença, uma desvantagem materializada. Há figuras de tempos idos, imagens espíritos em livros, que são para nós realidades maiores que aquelas indiferências encarnadas que falam connosco por cima dos balcões, ou nos olham por acaso nos eléctricos, ou nos roçam, transeuntes, no acaso morto das ruas. Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua conhecida. Tenho por mais minhas, com maior parentesco e intimidade, certas figuras que estão escritas em livros, certas imagens que conheci de estampas, do que muitas pessoas, a que chamam reais, que são dessa inutilidade metafísica chamada carne e osso. E «carne e osso», de facto, as descrever bem: parecem coisas cortadas postas no exterior marmóreo de um talho, mortes sangrando como vidas, pernas e costelas do Destino. Não me envergonho de sentir assim porque já vi que todos sentem assim. O que parece de desprezo entre homem e homem, de indiferente que nos permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece abstruso, de que os outros são almas também. Em certos dias, em certas horas, trazidas até mim por não sei que brisa, abertas a mim por o abrir de não sei que porta, sinto de repente que o merceeiro da esquina é um ente espiritual, que o marçano, que neste momento se debruça à porta sobre o saco de batatas, é, verdadeiramente, uma alma capaz de sofrer. Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia! Tínhamos esquecido isso, nós todos, nós todos que o conhecíamos do mesmo modo que todos que o não conheceram. Amanhã esquecê-lo-emos melhor. Mas que havia alma, havia, para que se matasse. Paixões? Angústias? Sem dúvida...Mas a mim, como à humanidade inteira, há só memória de um sorriso parvo por cima de um casaco de mescla, sujo, e desigual nos ombros. É quanto me resta, a mim, de quem tanto sentiu que se matou de sentir, porquem enfim, de outra coisa se não deve matar alguém...Pensei uma vez, ao comprar-lhe cigarros, que encalveria cedo. Afinal não teve tempo para encalvecer. É uma das memórias que me restam dele. Que outra coisa me haveria de restar se esta, afinal, não é dele mas de um pensamento meu? Tenho subitamente a visão do cadáver, do caixão em que o meteram, da cova, inteiramente alheia, a que o haviam de ter levado. E vejo, de repente, que o caixeiro da tabacaria era, em certo modo, casaco torto e tudo, a humanidade inteira. Foi só um momento. Hoje, agora, claramente, como homem que sou, ele morreu. Mais nada. Sim, os outros não existem...É para mim que este poente estagna, pesadamente alado, as suas cores nevoentas e duras. Para mim, sob o poente, treme, sem que eu veja que corre, o grande rio. Foi feito para mim este largo aberto para o rio cuja maré chega. Foi enterrado hoje na vala comum o caixeiro da tabacaria? Não é para ele o poente de hoje. Mas, de o pensar, e sem que eu queira, também deixou de ser para mim.