Fotografia, essa subserviente.



Pense nas equações:


  • Fotografia + antropologia = documentários fotográficos

  • Fotografia + psicanálise = fotografia artística

  • Fotografia + geometria = fotografia de arquitetura

  • Fotografia + sinestesia = fotografia gastronômica

  • Fotografia + showbiz = fotografia de espetáculos

  • Fotografia + mercado = fotografia de moda


Certamente podemos ampliar essa pequena lista. Mas essa já basta para o raciocínio que eu quero propor. Eu creio em fotografia não como arte em si, mas como uma plataforma/linguagem/ferramenta para comunicar. Fotografia para mim é comunicação. A questão é: comunicar o quê? E em seguida, comunicar como?


A densidade de um trabalho fotográfico não vem da construção técnica da imagem em si. Construir uma imagem tecnicamente boa, adequada ou perfeita é uma questão de técnica apenas. Conhecimento dos procedimentos e domínio do ferramental. É uma questão de saber o que cada mecanismo, instrumento e tecnologia permite. Como resultado final, teremos uma imagem conforme a mente do seu criador.


Mas a imagem em si é uma "caixa", é a embalagem, é só o portal para um assunto. O que interessa é comunicar o assunto. Interessa tocar o observador da imagem com uma idéia. Essa idéia pode ser bela, feia, chocante, agradável, fria, emocional, mercadológica… não importa. A fotografia é o meio de transporte dessa idéia. Apenas isso.


Quando caminhamos para a direção de transformar a criação/produção da imagem em si, em um fim, é como se o objetivo da escrita fosse o desenho das letras e não as idéias contidas nas frases. É possível isso? De certa forma sim. Por exemplo a caligrafia artística faz isso. Mas, neste ponto o desenho (graphos) é o fim e não a mensagem. A linguagem não é propriamente a linguagem das palavras, mas do desenho. Graphos também pode expressar um conteúdo. Mas estaríamos saindo do campo da língua escrita para o campo das artes plásticas, do desenho. A língua escrita (à mão ou não) apenas usa o desenho (signo) para a transmissão do significado, da mensagem. A língua subjuga o desenho. O desenho é o escravo da mensagem.


Para mim a fotografia é o elemento subjugado, usado, instrumentalizado pelo pensamento. Se não sempre, deveria ser. A construção das imagens deve servir ao pensamento. Não sou ninguém para proibir ninguém sobre esses fins. Mas me parece que fazer da letra (tipo, graphos) uma linguagem em si, é uma meta-linguagem. Faça-o quem der valor e quiser. Nada contra. Mas a fotografia, eu coloco em outro uso.


Meu pensamento e minha ação na fotografia sempre foi para algo além dela. A fotografia serve, suporta, conduz, sustenta a comunicação. Se eu soubesse pintar decentemente, poderia fazer essa comunicação com pincéis e tintas, se eu soubesse dançar com expressividade, poderia usar a dança, se...


O fotógrafo que se embrenha pelo mundo do documentarismo (narrar visualmente) deve ter um campo de pensamento, de reflexão, de estudo. Aliás, nisso reside o grande apego do documentarista, falar de algo (tema) que lhe atrai, na forma que lhe atrai (imagens).


No meu caso, conhecer o ser humano, as humanidades e as "humanices" que fazemos é o que me ocupa o pensamento. Eu olho para as coisas pensando em "que tipo de seres somos nós, que fazemos e vivemos dessa maneira". Eu olho para os meus erros e acertos, minhas decisões, meus limites, minhas capacidades e fico pensando em milhões de caminhos possíveis. Eu creio que grande parte das bobagens e conquistas que o ser humano realizou vem do fato de sermos um certo tipo de ser. Entender bem quem é o humano, é motivador pra mim.


"A fotografia é um meio de questionar o mundo e, ao mesmo tempo, de questionar a si mesmo". Henri Cartier-Bresson


Fotógrafos como Sebastião Salgado, Robert Frank e Josef Koudelka são antropólogos visuais (se é que posso usar essa expressão). Junto a estes estão milhares de outros anônimos ou quase anônimos fotojornalistas de empresas de comunicação, independentes ou simplesmente (nem tanto) de suas famílias. São pensadores do SER humano, ou de alguns seres humanos. Concorde eu com eles (e suas visões sobre o assunto) ou não, o entendimento da trajetória humana é o verdadeiro campo de trabalho deles, não a fotografia.


Já alguém que se lança na chamada fotografia de moda, está lidando com questões do mercado. Mesmo que pareça que a sua fotografia é sobre pessoas, não é. A atitude de uma fotografia de moda é a atitude da venda, da promoção, da construção da imagem, em suma, a construção de produtos. E neste ponto, pessoas são facilmente "mercadizadas" (marketing pessoal). Não uso essa expressão aqui com conotação negativa, não estou julgando isso, apenas situando a questão. A fotografia de retratos, ensaios pessoais, visa em última análise, criar uma imagem (construída em alguma medida, simplesmente capturada em outra) sobre as personalidades fotografadas. Nem sempre essa construção levar a um fim monetário, de retorno financeiro direto, mas pode. Reconhecimento, admiração, afago, tempo, elogios, são também formas de pagamento, "remuneração", do ego.


Alguém que vê na geometria, uma concretização bela da matemática, tão universal e tão abstrata, vai naturalmente desenvolver olhares na fotografia de arquitetura. A arquitetura interfere nos espaços, conduz o usuário, molda hábitos, enfatiza, limita, reinterpreta, usando geometria. A fotografia de arquitetura é uma ode à geometria subjacente, e por consequência da matemática. Sejam nas estruturas orgânicas de Gaudi, nas sensuais de Niemeyer ou nas explícitas de Fernando Peixoto.


Hum, fotografia de gastronomia! Nada mais enfático para mostrar quão limitada é a linguagem fotográfica em termos de sentidos. Apenas um sentido: a visão. A gastronomia em si, é a única plataforma criativa que nos atinge diretamente os 5 sentidos. Para a fotografia de gastronomia, o tato, o olfato, a audição e o sabor são indiretos, são induzidos, são alusões da visão. São acessados pelos olhos, pelas nossas memórias sensoriais. O desafio do fotógrafo de gastronomia é enorme. É enganar nosso cérebro para que, vendo, cheire. Para que vendo, ouça, e assim por diante.


Já documentar visualmente alguma coisa, alguma ocasião, é um ato interpretativo. É um esforço em manifestar um ponto de vista. O enquadramento escolhido, a lente, o momento… tudo é para dizer algo sobre algo. Os filtros pessoais do que segura a câmera são implacáveis e quase inevitáveis.


"O sujeito que olha é essencial para o significado encontrado, e ainda assim pode ser superado por ele." John Berger.


Ao mesmo tempo que existe a antropologia do retratado, existe a antropologia do retratista. É preciso aprender sobre si, fotógrafo. Ao entender esse humano retratado que faz o que faz, o fotógrafo também pode (e deveria sempre) entender-se um pouco mais. Pode mentir, pode enganar, pode induzir, reduzir, ampliar...como todos os humanos. Mas pode ser mais nobre que isso também.


Mas enquanto a fotografia em si não se torna algo pequeno para o fotógrafo ele ainda não entendeu a fotografia. Enquanto as preocupações são sobre qual lente usar, qual ajuste, como controlar a luz… ele ainda não aprendeu a escrever, está preocupado em "apontar o lápis". Entretanto é preciso apontar. Mas neste ponto a história ainda não começou. Nem sabemos ainda se a história é boa ou ruim. Sabemos somente que ele tem um lápis e sabe apontá-lo, ou ainda tenta saber. Sabe talvez desenhar as letras, mas não sabe encantar o leitor.


Quando digo que fotografia + antropologia = documentários fotográficos, quero deliberadamente mostrar que a fotografia é a parte menor. O assunto principal desta equação não é ela. O importante não é ela. O campo de reflexão não é escrever com a luz. Isso é apenas o ferramental. Os assuntos dos fotógrafos são as pessoas, ou as histórias, ou o mercado, ou a comunidade, os sentidos, ou o tempo... depende da área onde ele se posiciona como fotógrafo/comunicador.


Olhando as fotos de Robert Capa, Annie Leibovitz, Alain Laboile, László, Karsh e muitos outros, não acho que eles estejam falando de imagens, estão falando com imagens. Podem estar falando de alguém, ou mesmo falando "compre isso!", ou ainda "pense nisso". Mas o que ocupa a mente deles não é fotografia. Fotografias bem feitas tecnicamente, sem temas que importam, são como alguém que sabe dirigir, mas fica dando voltas no quarteirão pois não sabe para onde ir.


"Nada pior que uma imagem nítida de um conceito confuso." Ansel Adams


Talvez, depois dessa viagem toda aqui, você comece a separar os temas fotográficos, ou áreas da fotografia em dois grupos: os pobres e os nobres. E talvez coloque aquelas fotografias de calças jeans que vemos nos outdoors no grupo dos pobres. Ou alguns ensaios pessoais, ou mesmo o banner em frente à sua pizzaria predileta vá para este grupo. Não faça isso. Tenho que tentar esclarecer que não é disso que trato aqui. O que digo é que o assunto é superior ao veículo. Não me cabe julgar a "nobreza" do assunto de outros, nem mesmo se eu concordo com ele, ou se ele me agrada aos olhos. O que digo é que a fotografia é veículo, é linguagem. Ela importa como suporte. E a parte mais fácil do fazer fotográfico, do tornar-se fotógrafo é dominar a técnica, o instrumental. Difícil mesmo é ter o que dizer ou saber como dizer.


A fotografia de arte, ou fotografia artística é um caso ainda mais especial. Falar da alma humana, ou conduzir a alma humana é um tarefa para poucos. Quando vejo Goya, Picasso, Van Gogh, Munch, Monet, Tomie Ohtake ou Pollock entendo mais sobre a alma humana. Por todos estes, o ferramental usado foi brilhante para carregar os temas. Não é preciso gostar de tudo, eu mesmo não gosto de todos esses da mesma forma. Mas gosto muito de ver suas "almas" nas suas obras e gosto de aprender sobre as maneiras como eles leem o mundo.


Nos nossos dias, a palavra arte ganhou muitos significados que não tinha. É comum que as pessoas, admiradas, olhem para algo muito bem feito ou muito complexo e digam: Que obra de arte! Mas podem se surpreender se descobrirem que um algoritmo que controla uma impressora 3D criou determinado "artefato artístico". Fazer com esmero, com técnica apurada, com capricho não caracteriza a arte como tal, apesar de isso ser muito importante. Aliás, artistas não funcionam bem sem um percurso de formação técnica. Não é bom queimar etapas. Jogar tinta na tela por falta de técnica para desenho realista, ou tocar quaisquer notas por falta de conhecimento de harmonia, são fatos cada vez mais comuns nos meios "artísticos". As palavras "instalações" e "performances" tem sido abusadas por gente malandra, mercantilista, incompetente ou preguiçosa todos os dias.


Mas o assunto da arte não é a sua feitura. Não é a obra finalizada. O assunto da arte está na obra, mas não é a própria obra. A obra é suporte para a expressão do artista. A expressão sim, é arte, desde que apoiada pela técnica (o como) e consistente em seu propósito (o porquê). Mas daí a julgar "arte boa" ou "arte ruim" é outro assunto para outra discussão. A fotografia pode ter seu uso na arte. Há uma fotografia artística, sem nenhuma dúvida. Uma fotografia que lê, interpreta e expõe a alma humana. Uma fotografia que fala do interior, mais que da aparência. Mas ela é apenas uma parte, apenas um dos universos temáticos que as imagens técnicas podem amparar. Vide os trabalhos de Francesca Woodman, Scott Macleay, Danny Bittencourt, Hiroshi Sugimoto, Vik Muniz (só pra citar alguns que gosto muito) e muitos outros.


Qualquer que seja o contexto, qualquer que seja a área da fotografia, a feitura fotográfica em si importa pouco. Encarar a fotografia como a atividade de capturar imagens com um equipamento eletrônico é uma imensa redução, mas não é de forma alguma errado. Entretanto, encarar a fotografia diretamente como arte em si, é tirar dela a tarefa nobre e fundamental de comunicar. Nem toda fotografia é arte, e nem precisa ser.

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Charbel Chaves Fotografia

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