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Charbel Chaves Fotografia

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Rua Maria Adame Pataro, 184

Barão Geraldo - Campinas, SP

+55 (19) 99756-3999

O nome dele é Edson Borges Profeta, ele tem 97 anos. Foi casado com Noemia Machado Profeta por 73 anos. Ela morreu ano passado no dia 11/4/18 vítima de um AVC. Ele ficou inconsolável nos 15 primeiros dias, depois acalmou. Mas ele não tocou nesse assunto (reserva sentimental dolorosa).

Ele estudou o científico (2º grau) já casado com 4 filhos e trabalhando o dia todo. Trabalhou na Siderúrgica Belgo Mineira (antiga Agropastoril) durante 20 anos, cujo presidente era o Dr Júlio Soares, cunhado do Juscelino Kubistcheck, que na época era governador de MG.

Passou no vestibular e fez faculdade de Química na UFMG e depois passou no concurso para ser professor pesquisador, onde trabalhou durante 30 anos. Ele pesquisou e conseguiu separar os elementos da Monazita, mas seu trabalho foi proibido de ser publicado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear. Tensões e interesses não científicos levaram a esta situação. 

Ele se aposentou como professor adjunto 4 e a lei da época concedia a promoção de um cargo, no caso de professor titular, quando da aposentadoria, diferença essa que está na justiça há anos e até hoje ainda não recebeu essa diferença.

Ele aprendeu alemão com mais de 60 anos e aprendeu a usar computador com mais de 70 anos!!!

Bom, era pra ser só uma passadinha na casa dela pra gravar uma "coisinha" a pedido da neta Thais Profeta. Mas Sr. Edson é tão bom de conversa! Lá se foram quase 2 horas de gravação em vídeo. Sem roteiro, sem guia, só causos. E eu encantado com as falas e falas dele. Acho que nunca fotografei por tanto tempo sorrindo junto à câmera.

 

Nós ao redor da mesa e ele distribuindo vida. Histórias, comentários inteligentes sobre as passagens da sua carreira profissional e de vez em quando ainda tirava sarro por não sabermos os significados de algumas palavras "raras". Ele adora ampliar seu próprio vocabulário. Faz palavras-cruzadas do nível mais alto. Pesquisa o que não sabe no dicionário e anota as "novas" num caderninho. Um apego lindo com a Língua Portuguesa. Um apego lindo com sua própria capacidade de pensar. 

Os vídeos ficaram como uma singela lembrança para a neta Thais e para a família Profeta. As fotos eu nem precisava ter capturado, elas ficaram gravadas no meu coração, com uma pontinha de inveja por tanta vitalidade, sabedoria e bom humor aos quase 100 anos de idade. 

O texto abaixo foi escrito por ele mesmo, aos 90 anos de idade

 

RESUMO DA EPOPEIA DE EDSON BORGES PROFETA

“Na encruzilhada silenciosa do destino duas almas  errantes se encontraram...”

G.  Junqueiro.

PAIS: Benedito Odilon Profeta – nascido em Alagoinhas -BA e Bebiana Bonfim Borges – nascida em Natividade – GO – hoje estado do Tocantins. Ele, missionário da Igreja Batista, mandado para Goiás, juntamente com dois missionários americanos para evangelizar os índios Carajás e Itapirapés, da região da Ilha do Bananal. Após o casamento foram para Porto Nacional (GO).    Ali nasceram os 4 primeiros filhos, Osias, Ester, Benedito Filho, e Otacilio. A filha mais velha, Else, nasceu em Vitória (ES). Não sabemos como o casal foi parar no Espírito Santo!  Não temos detalhes entre o Espírito Santo e a volta para Porto Nacional. Nossa epopéia começa com a volta da Missão Batista para o sul da Bahia. A minha, se inicia no dia 4 de novembro de 1921, na nossa passagem pela cidade de Santo Antônio de Jesus, BA. Acordei para a vida num lugar chamado Rio Novo, sul da Bahia. Não havia luz (a não ser do luar!), a água era apanhada no rio. Alias rio grande, selvagem, cheio de perigos, água barrenta. Me jogaram de uma canoa no meio do rio... ali aprendi a nadar. Esperto, curioso , aprendi as primeiras letras em casa com minhas irmãs mais velhas. Não havia colégio, meu pai fundou um. Ele, minhas irmãs Else e Ester e alguns voluntários, os professores. 

Veio a revolução de 1930, depois a de 32.   0 colégio fechou, meus irmãos mais velhos debandaram. Aí acabou a família (o lar). Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida/ da minha infância querida / que os anos não trazem mais”. Castro Alves.

Menino ainda, com doze anos de idade me vi no mundo sozinho. Nomes estranhos me passam à memória... Jequié, Poções, Vitória da Conquista, Porto de Santa Cruz, na fronteira com Minas,  Porteirinha - MG. Olhando no mapa, não consigo desvendar um mistério: como vim parar em Montes Claros.

 

1935 – EM  MONTES CLAROS

Alí foi feito meu registro de nascimento. Recorda-me o jornal dos Veloso, lá trabalhava meu irmão mais velho, Osias, jornalista, já conceituado,  amigo do prefeito. Aos 16 anos calcei o primeiro sapato! Meu Deus, que suplício andar de sapatos. Pés inchados, calos sangrentos, agora prisioneiros de uma “fôrma de couro”.

 

1939

Em Belo Horizonte ,aos 17 anos, esperando os 18 para entrar no Exército. O que me vinha sempre à memória era a ansiedade de aprender, de estudar, de ter uma profissão decente, um lar com esposa e filhos. A única saída foi o Exercito.

 

1939 – 1940 – Serviço Militar

No Exército aprendi muita coisa boa e útil. Comecei a freqüentar a Escola de Comércio na rua da Baía com Av. Augusto de Lima, onde aprendi datilografia, redação, português e matemática. “Eu era feliz e não sabia...”

 

1940- 1943

Ao dar baixa, o que  fazer sem profissão e sem emprego?  Fui auxiliar de alfaiate do meu cunhado Bolivar,  pai da Aldinha.  Vaguei alguns anos em BH onde freqüentei lugares terríveis : o Montanhês, onde aprendi a dançar. Conheci todos os clubes de  dança, do Tremedal no C. Prates ao Automovel Clube.  Brilhava no salão e era disputado a dedo pelas garotas da época. Após uns meses no Rio, voltei para Belo Horizonte, depois para Valadares.

 

1943 - 1949     EM GOVERNADOR VALADARES

Trabalhei num atacadista da cidade, como caixa, faturista e estoquista. Autodidata, escrevia bem, datilografava bem, em pouco tempo manipulava a famosa Facit com tanta rapidez que o libanês Seleme Hilel, (dono da firma), ficava com a boca aberta  ao me ver datilografar e calcular. Coitado, só sabia assinar o nome! Em  Valadares, com uma carta de apresentação de um amigo meu, muito rico (da família dos Mascarenhas) a Paulo Birro, filho de grande comerciante donos da Casa Birro. As portas da sociedade se abriram.

O único dom que eu tinha era dançar muito bem, tratar muito bem a todos. Aí a disputa foi brava. De um lado, as meninas me disputando como para no Salão. Chamado para todas as festas, todas queriam uma contradança. Enquanto alguns rapazes me olhavam de lado, outros queriam se aproximar pra tirarem vantagem com a minha fama de bom de valsa. Eu não queria essa sociedade,  cheia de invejas e malquerenças. Parti para outra , ainda pior. Comecei a freqüentar a boemia, lugar perigoso,  gente de toda espécie. Mas meus amigos eram sempre rapazes da sociedade.  A mulherada começava a apostar quem me pegava primeiro.  Os homens, olhando de lado, de cara feia, deixando o 38 a vista. Também, não era essa a sociedade que eu queria. O atacadista contratou um Perito Contador, formado, diploma superior, tornou-se um pequeno rei. Como eu não tinha diploma de nada (nem ginásio), o contador começou me jogar pra escanteio, até que em 30 de abril de 1946  pedi demissão.  Meu caminho era outro, minha meta era estudar, formar, ser alguma coisa na vida. Mas... “Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho tinha uma pedra...” C. D. de Andrade: a sogra.

 

1945 - O CASAMENTO

Meu irmão casou-se com a Rute, filha mais velha da família Machado. De vez em quando ouvia a indireta: “ um já chega, não quero outro pobre na família”. Comecei freqüentar a Igreja Presbiteriana que a família freqüentava. Coração de filho,  pai não manda nem conhece. Uma olhada aqui, por baixo do queixo da mãe, outra olhada ali na saída da igreja,uma partida vôlei aos sábados, uma festinha. O pastor da Igreja, Boanerges Leitão, era outra pedra no caminho. Queria  entrar na família, mas não dizia que sim nem dizia que não, antes, proibia as meninas namorar. Acintosamente, a sogra não me aceitava, não  aceitava mesmo.  Na saída da igreja até a porta da casa, a mãe ia sempre entre nós dois, não deixava a menina chegar perto. Chegando a casa a sogra dizia : “Noemia vamo entrar!”,  de pé, na porta esperava ate a menina entrar. No dia do pedido, junto com meu irmão, falei com  o Sr. Oscar o motivo de estarmos ali .Ele ouvia calado, de vez em quando mordia o dedo . Aí bradou: ”Você quer casar? Você pode sustentar uma família?  Não me recordo o que respondi. Ele disse: depois eu dou a resposta.    Algum tempo depois, deu o consentimento: “Pode casar, mas tem que ser logo.” Era em junho, ele mesmo marcou  24 de julho, seu aniversario.

 

1946  

24 de julho Noemia Louback passou a assinar Noemia Machado Profeta. Um detalhe, a sogra não foi à Igreja. Lembra-me Camões: – “Sete anos de pastor Jacob servia” Sete anos de pastor Jacó servia Labão , pai de Raquel , serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E  a ela só por premio pretendia. Os dias, na esperança de um so dia, Passava, contentando-se com  vê-la; Porem o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava a Lia. (tradição judaica) Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assim negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: - Mais servira , se não fora Por tão longo amor tão curta a vida!

1947 Sete de fevereiro ingressei na Pastoril Rio Doce conhecida como Companhia Siderúrgia Belgo Mineira (CSBM) como escriturário do Departamento de Pessoal. Calculava e datilografava sozinho uma folha de pagamento de mais de 250 operários  na Facit e na Remington. Ali nasceram Marlene, na cidade, e na Agro Pastoril, George e Júlio. A Pastoril era um lugar insalubre, o George começou a adoecer. Piorou com uma alergia ao leite que lhe valeu uma eczema no corpo inteiro e um internamento de 6 meses em BH no Hospital Municipal, sozinho, aos cuidados do meu cunhado Toninho, pai da Adilse e do dr. Ubaldo Pena. Sem saber, usamos até a adversidade para alcançar a nossa meta. Estudar, formar, ser alguma coisa na vida, deixar de ser escriturário. A orientação de Deus é muito importante. Falei com o diretor da Companhia, expus-lhe a situação e pedi transferência  para BH. Em  01 de dezembro ano 1949, tudo acertado, mudamos. Endereço Rua Pe. Eustáquio, nº 498 fundos. Carlos Prates. Ali nasceu o Edson Filho, em junho de 1953.

 

1949   -     BELO HORIZONTE DE NOVO

Fiz o Preparatório do Curso Madureza. Fiz o concurso para o Colégio Mineiro, frequentei o Científico à noite.  Colégio de regime severo, duro, exigente, professor não queria saber se você tinha tempo ou não para estudar e fazer trabalhos de casa. Surgiu outra “pedra no meu caminho”.  Como sair de casa as 6 da manhã de bonde, chegar no serviço as 7 hs, trabalhar até as 18, sair do Edifício Sulacape e chegar ao colégio, lá na Av. Augusto de Lima, de bonde, antes do “carcereiro” fechar o portão?  “Carcereiro” era o nome do porteiro.   Depois das 19 horas ninguém entrava, e se conseguisse, correndo e chegasse a porta da sala de aula e o professor já a tivesse trancada, não entrava só na próxima. Ninguém podia ficar no corredor, nem abordar professor e perguntar-lhe algo. Era proibido, como se fora uma agressão. Muitas vezes levava uma semana sem ver meus filhos acordados. Levantava antes das seis, eles dormiam. Saía, e chegava quase meia noite, todos já dormiam. Dura batalha travada contra o tempo. Dura e ferrenha. Pertinaz como poucos, continuamos a luta. “Viver é lutar, se a vida é combate que os fracos abate, aos fortes aos bravos só pode exaltar” . G Dias,

 

NA UNIVERSIDADE

Todos os 17 colegas de científico passaram no vestibular, inclusive eu. “Havia uma pedra no meu caminho, no meu caminho tinha uma pedra”. Os cursos, quase todos exigiam tempo integral. Na medicina, ao tentar me inscrever, um professor me perguntou: você dispõe, pelo menos 12 horas por dia pra estudar? (acho que foi o famoso prof. Baeta Vianna)

No meu serviço na Belgo Mineira, recebia sempre um telefonema do governador Juscelino Kubistchek para o Dr. Júlio Soares (esse, presidente da Cia). Certo dia, esperando o atendimento, o governador me perguntou:

Juscelino: “Você está estudando rapaz?”

Eu: “Estou governador.”

Juscelino: “Va estudar Direito, posso te dar um Cartório!” Nem imaginava o que era aquela promessa.  Na Faculdade de Direito eu ouvi a mesma pergunta “quanto tempo você dispõe para estudar? De 8 a 10 horas por dia?

Ah! pobre pai, trabalhando 11 horas por dia, com 4 filhos pra tratar, como podia estudar? A solução parece que veio do céu. Subindo o elevador junto com o Dr. Júlio Soares, ele falou - “Meus parabéns me falaram que você passou na Universidade, como vai ser para você estudar? Qual o seu curso? Vamos na minha sala, quero conversar com você.”

Senti um calafrio. Pronto, é hoje! vou ser despedido! Na sala, respondi às perguntas. “Pretendo o Instituto de Química da UFMG, pois é o único que não exige tempo   integral.” O Dr Júlio pegou o telefone - “Sr. Bernecker pode vir aqui por um minuto?  Bem, quero que arranje outra pessoa para o lugar do Edson, vamos arranjar um meio dele frequentar a Universidade. Converse com o Chefe do escritório pra arranjar outro serviço para ele. Quero vê-lo formado. É só isto, depois conversaremos os detalhes. Edson, fique aqui. Sei que você sempre foi um funcionário exemplar.  Sei que você tem 4 filhos, o que você precisar pode falar comigo diretamente.” Bernecker era o Superintendente. O Dr. Júlio Soares, o Presidente da Cia.

 

1956 – FORMATURA

No auditório, lá estava o Dr. Júlio Soares meu benfeitor.

 

1957 – Janeiro.

Novamente em Governador Valadares, não mais como escriturário, mas, como Químico Responsável da fábrica de Compensados. Salário de Cr$8.500,00 para Cr$14.000,00.

 

1958 - Fevereiro

Transferido para Monlevade  para dirigir o Laboratório de Pesquisas de Carvão Vegetal. Ali  nasceram Alexandre e Eloisa .1959  - Procurado por um grande amigo, engenheiro de Minas Dr. J.B.Araujo, aconselhou-me a ir para a Universidade. “ – Va fazer um Concurso para Pesquisador, aberto  na UFMG. Neste Monlevade você vai respirar pó de carvão pro resto da vida”. Fui e fiz. Após o concurso fui nomeado Pesquisador para o Instituto de Química e para a Escola de Engenharia. Esta, (para a E.Eng.) foi cancelada depois, pelo então Governo Jânio Quadros, que entrava em lugar do Presidente Juscelino. Olha outra pedra no caminho: meu salário na Belgo Mineira já era Cr$ 44.000,00, o da Universidade 36.000,00.  – “Dr. Araújo como vou me arrumar em B. Horizonte ganhando 8.000,00 a menos, com 6 filhos e pagar aluguel?” - Profeta, o que você está fazendo, eu ia fazer há 15 anos atrás e hoje estou tristemente arrependido. Va e tome posse. Aqui na Belgo Mineira, eu vou arranjar tudo com o Superintendente. Voce não perde os 14 anos de serviço!

 

1960 – Conversa entre o Superintendente da Belgo (Dr. Henry Meyer) o Dr. Araújo, eu e o Diretor do Pessoal. - H.Meyer :  Fique tranquilo, já conversei com o Araújo, e com o Diretor do Pessoal. Você pode tomar posse lá na UFMG, assuma o cargo, e não vamos dar baixa na sua Carteira. Você tem um ano para se adaptar. Sua família pode ficar aqui, continua receber o seu salário sem restrição. Depois de um ano se quiser voltar seu cargo está a sua disposição. Locamos uma casa no Bairro da Graça e mudamos.

 

1961 – Dezembro

Ao levar a carteira para a baixa ouvi um “tem recibo para assinar”. Ah, que surpresa! Mais de 1 milhão e meio de cruzeiros, de indenização, férias e gratificações. Comprei um lote por Cr$420.000,00, iniciei a construção, parte financiada pela CEF. Certa tarde chega no lote um caminhão da Asa Branca com umas toneladas de canos e ferros. Não. Não fiz esta encomenda, e chofer responde é de Monlevade, mandaram pra este endereço. Quem mandou?  até hoje não sei. O Instituto de Química funcionou no Santo Antônio no prédio da FAFICH, até a construção do seu prédio na Pampulha. Com a orientação do professor J.I.Vargas, iniciamos duas linhas de pesquisa. Uma para fracionar e purificar os elementos Terras Raras da monazita de Guarapari; outra para separar um  raro isótopo do Radio (226)  muito precioso no tratamento do câncer e muito menos danoso do que o usado Radio 228. Nesta época o professor Vargas estava na França dirigindo uma equipe de pesquisas em Grenoble. Veio a Brasília e de passagem por BH manda me chamar no Aeroporto e manda parar a pesquisa do 226 por que já separamos na França.